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| | | | | | | | | | | | | | | | | | SALVADOR | | | | | | | | | | | | | | |
| | | | | | | | | | | | | | | | | | BRINCA DE | | | | | | | | | | | | | | |
| | | | | | | | | | | | | | | | | | BONECAS | | | | | | | | | | | | | | | |
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Salvador brincava de bonecas. Desde pequeno gostava de inventar histórias e encontrava nos brinquedos os companheiros perfeitos para sua imaginação. Seus favoritos eram as bonecas da irmã. Logo que ela ganhava uma ele se adiantava para conhecer a novata e fazer as apresentações:
-- Oi, eu sou o Sal. Qual é o seu nome?" - perguntava, seguido de um auto-elogio -- Que nome bonito, __________!
Os sonhos de Susana, o alcoolismo de Marta, o assassinato cometido por Kelly. Cada uma virava uma personalidade própria, com uma história diferente que devia ser respeitada. Era como inventar uma novela, cada dia um capítulo dramático até o final feliz. No entanto, a vida, não sendo novela, nem sempre tinha esse fim.
Como quando Sarah resolveu fazer uma mudança radical para superar a morte da mãe e cortou o cabelo como sinal de luto. A reação das amigas-bonecas foi positiva e solidária, mas Priscila, a dona delas, não aprovou e foi contar para a mãe.
Toda palmada como forma de punição é injusta, especialmente aquelas que ele recebeu de Dona Zilda. Tinha o gosto amargo da injustiça, afinal ele não a estava maltratando, junto com a azeda certeza de que qualquer explicação não adiantaria nada, pois não achava que a mãe apreciaria sua forma de brincar.
Percebeu rápido que a brincadeira ficara perigosa, então para evitar o risco, deu preferência aos seus bonecos.
Salvador, então, passou a brincar com bonecos. Antes, bem pouco, mas sem suas favoritas a frequência aumentou. Os bonecos eram tão chatos, tão sem graça. Todos eram a mesma coisa: brancos, musculosos, pouco articulados e tinham uma expressão carregada como se estivessem intimidando um inimigo. Tamanha a semelhança entre eles que o menino nem se preocupara em batizá-los. A singularidade de cada um ficara na cor da roupa: o cara de azul, o de verde, marrom, cinza, o da calça camuflada.
Sequer serviam para começar uma amizade, ter uma conversa mais profunda, dar um conselho, nada tinham a ensinar. No rosto de cada um deles apenas o desejo de começar uma briga. Às vezes o próprio garoto era quem cedia às provocações e os atirava na parede - vencendo a luta, mas perdendo uma nova história.
Certo dia, a madrinha Tânia apareceu em casa depois de um longo período sem visitas e trouxera presentes para ele e sua irmã. Priscila ganhara uma boneca cuja beleza ele nunca tinha visto antes, tinha a pele marrom bem escura e olhos grandes e vivos que deixaram Sal hipnotizado até que a garota a demovesse com o corpo, interditando-lhe o olhar:
-- É minha e ai de você se tocar nela! - exclamou. E saiu correndo para juntá-la ao restante da coleção sem que ele tivesse a chance de fazer as apresentações.
Dona Zilda se apressou em contar o ocorrido com a boneca de Priscila como se fosse uma travessura. Salvador deu de ombros porque depois de apanhar da mãe e de ser ameaçado pela irmã suas preocupações com o cabelo de Sarah pareciam menores. Percebendo-o triste, ainda que pelos motivos errados, Tânia o encorajou a abrir o seu presente e então veio a surpresa: o menino ganhara um boneco diferente de todos os que já tinha:
-- É pretinho igual a mim!
A novidade o encheu de entusiasmo para criar novas histórias para aquele boneco que se parecia tanto com ele. Deu um beijo de agradecimento na madrinha e saiu correndo para o quarto. A primeira coisa que fez foi se esconder embaixo das cobertas e confessar todas as mil histórias que deixaram de ser contadas até a chegada dele.
Eram tantas as histórias que apenas o cansaço fez com que parasse. Ao ajeitá-lo para dormir a mãe até tentou separá-lo do boneco, porém não adiantou - Salvador fizera um novo amigo.
No dia seguinte, logo que acordou, o menino se deu conta de que não tinha dado um nome para seu presente como era de costume. Pensou que talvez fosse porque o costume era dar nomes a bonecas brancas, não a um boneco negro. E isso parecia ter um peso diferente nessa decisão, o que fez sua cabeça fervilhar a manhã inteira, embora sem nenhum sucesso.
Chegou a hora do almoço e a família sentou-se à mesa. Os irmãos se comportavam parecido. Ele, ainda intrigado, remexia a comida muito mais que levando à boca ao passo que Priscila, sussurrando e gesticulando com a nova boneca, nem tocava na comida. Dona Zilda apenas observava a cena com desgosto por não receber o agradecimento pela comida e amaldiçoando mentalmente a madrinha por dar um brinquedo a mais que as crianças deixariam espalhadas por aí.
Notando a lentidão das crianças, a mulher bufou, pois temia perder o horário da manicure, e começou a apressar o menino no mundo da lua e a menina anestesiada. Apesar de agilizar o ritmo da comenda, a ameaça de algumas chineladas provocou um acidente entre o molho quente e a roupa de Priscila. Em meio à fúria da mãe e do choro da irmã indo em direção ao banheiro para arrumar o estrago, Salvador se viu a sós com os novos bonecos.
Notando a lentidão das crianças, a mulher bufou, pois temia perder o horário da manicure, e começou a apressar o menino no mundo da lua e a menina anestesiada. Apesar de agilizar o ritmo da comenda, a ameaça de algumas chineladas provocou um acidente entre o molho quente e a roupa de Priscila. Em meio à fúria da mãe e do choro da irmã indo em direção ao banheiro para arrumar o estrago, Salvador se viu a sós com os novos bonecos.
Os olhos dela eram realmente hipnóticos e o tom de pele escuro era refrescante. O cabelo de nylon preto fora imprudentemente molhado, então começava a frisar, o que geralmente não era do agrado dele, mas nela ficava encantador:
-- Esse penteado fica bem em você! - disse, e emendou o elogio com seu velho hábito -- Eu sou o Sal. Você é muito bonita... hum... Cristina!
Tão logo disse seu nome, ficou radiante como o sol, se enchendo de tamanha alegria que ela transbordou sobre a mesa e iluminou toda a sala, como que guiada pela expansão do universo e expandindo com ele para poder brilhar mais e mais. A dificuldade de instantes atrás deu lugar a uma nova força criativa:
-- É um prazer conhecer você... e seu irmão Cristovam!
Mesmo que Priscila não reconsiderasse a aproximação com a boneca, teriam os três aquela estranha refeição só para si, quando, juntos, haviam descoberto o infinito. Algumas colheradas finais na comida e Salvador partiu para o quintal, afoito por brincar com o irmão de sua amiga Cristina.
A brincadeira com Cristovam era diferente. A relação imediata que estabeleceram se estendeu ao longo do tempo e o boneco se tornou seu principal companheiro e confidente. Em parte porque as crianças do bairro e da escola não gostavam muito de brincar com ele, em parte porque ele não gostava muito de brincar com elas. Especialmente no bairro, eram raras as vezes em que era convidado para se juntar ao grupo. Quando acontecia era para completar um time porque alguém ficou doente ou não podia sair de casa.
"Melhor brincar sozinho!", pensava.
"Melhor brincar sozinho!", pensava.
Certa vez, durante um feriado prolongado, praticamente todas as crianças do bairro foram viajar, exceto ele e o vizinho, Thiago, um menino branco com óculos fundo de garrafa. Na falta de seus amigos mais próximos, Thiago chamou Salvador para brincarem na casa dele. Por mais que conhecesse sua posição secundária, aceitou o convite e levou consigo o boneco preferido e alguns daqueles que não gostava.
O vizinho queria imitar alguns filmes de ação que via na TV ao passo que o Sal, que até gostava de alguns desses filmes, queria explorar outras possibilidades com eles. Apesar do estranhamento mútuo, Salvador entrou na onda do vasto repertório de Thiago e ele, por sua vez, entrou na onda da criatividade de Salvador e as ideias de um e de outro foram se combinando e se multiplicando a tarde inteira.
Quando já estava anoitecendo e o menino tinha que voltar para casa, Thiago resolveu apresentar sua coleção completa de bonecos, que incluía um boneco negro como o seu.
Ele era muito parecido com Cristovam, mas um pouco maior, tinha uma roupa diferente e estava mais mal-cuidado. Percebendo o interesse de Sal, o vizinho sugeriu uma troca por um dos bonecos que ele havia trazido. O garoto nem hesitou em dizer sim - poderia dar todos se ele pedisse.
Troca feita, Thiago e Salvador se despediram e combinaram de brincar algum dia desses. O menino se apressou para chegar em casa e dizer para sua irmã que tinha um novo amigo: Estevam.
Quando já estava anoitecendo e o menino tinha que voltar para casa, Thiago resolveu apresentar sua coleção completa de bonecos, que incluía um boneco negro como o seu.
Ele era muito parecido com Cristovam, mas um pouco maior, tinha uma roupa diferente e estava mais mal-cuidado. Percebendo o interesse de Sal, o vizinho sugeriu uma troca por um dos bonecos que ele havia trazido. O garoto nem hesitou em dizer sim - poderia dar todos se ele pedisse.
Troca feita, Thiago e Salvador se despediram e combinaram de brincar algum dia desses. O menino se apressou para chegar em casa e dizer para sua irmã que tinha um novo amigo: Estevam.
Cristovam e Estevam logo fizeram amizade e brincar de inventar histórias começou a ter uma nova graça com os dois bonecos. Eles não eram mal-encarados como os demais e suas histórias eram diferentes das suas antigas companheiras. Cristovam falava de filmes e livros alternando com piadas que aprendeu com Cristina. Já Estevam, das viagens pelo mundo e dos lugares que gostaria de conhecer. E essas conversas viravam planos e, com eles, partiam para uma aventura juntos.
Em uma dessas aventuras, enquanto descansavam dentro de uma caverna, começaram a relembrar de situações estranhas, engraçadas e perigosas que passaram. Em meio a sensação de conforto que proporcionavam um para o outro pensaram que o melhor de tudo era ter um amigo por perto. Então se abraçaram por um longo tempo, trocaram carícias e se beijaram.
De repente ambos piscaram e...
Sal rapidamente saiu debaixo da coberta-caverna, não acreditando no que acabara de acontecer. Seus pulmões estavam descontrolados, tentando se refazer do acontecimento e verificar a própria sanidade. Antes que chegasse a qualquer conclusão, ele se lançou sobre a cama, revirando a coberta e o colchão na tentativa frustrada de reencontrar seus brinquedos. Nada adiantou.
Angustiado pela constatação do sumiço, ele piscou repetidas vezes de forma desesperada e até um pouco violenta tentando reverter o que passou, mas já era tarde.
Piscou, piscou, até desatar a chorar. Um choro tão soluçante e molhado quanto baixinho e doloroso. Quando cessou, tinha vinte e quatro anos, estava atravessando uma avenida e tremia.
Salvador, pois, brincava com o perigo. Resolveu sair do armário, transar com um cara. Combinou no bate-papo de encontrá-lo num fast-food. Comeu sozinho, esperando. Passaram horas e ele não vinha. Ao desistir do encontro, se dirigiu ao caixa e se deparou com o esperado em uma mesa perto da saída.
Entraram em contato disfarçando uma familiaridade para não atrair olhares, pagaram as respectivas contas e foram andando para um motel próximo. Ele não era como os outros com quem já tentara alguma coisa. Tinha uma beleza comum, o rosto imaculado, pouca barba e sem espinhas, as mãos ásperas do trabalho de estoquista, uma elegância no olhar. Pela conversa ele era certamente o mais nervoso dos dois, mas notava-se a mesma vontade de sedução, que só ia crescendo até chegarem ao seu destino.
Sempre imaginei que fosse numa cama com dossel e colchão de plumas, mas foi no quarto de um motel barato onde Santiago e eu ficamos a sós. Eu estava ciente de todos os riscos, mas não tinha mais o medo da infância. Quando a gente começou a se pegar, já pelados na cama, eu resisti ao beijo, mas fui dobrado pela sua gentileza. Então eu apertei bem os meu olhos, espremi eles a ponto das minhas pálpebras ficarem molhadas. E depois percebi que minha boca ficava mais molhada ainda, molhada e quente, que gostoso! Que sensação! Então abri os meus olhos, porque eu desejava olhar para ele mais que tudo no mundo. E quando abri, encontrei os seus olhos mirando os meus, e atrás deles um mundo novo. Foi abrir os meus olhos, todos os meus olhos, que nós piscamos e...


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