sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Ensaio Amorosso

Te amo e te quero de carne e osso, principalmente osso.

Tem gente que ama de corpo e alma; por uma noite; de coração; entorpecido (como Isobela e Raberto). Mesmo se pudesse eu não te amaria assim. Porque prefiro te amar como te amo. Não foi escolha, tenho certeza. Mas está bom assim. De carne e osso. Principalmente osso.

Estamos bem ligados entre nós. Há outras pessoas, é verdade. Elas são legais, é verdade. Há laços entre a gente, é verdade. Cada um é único, é verdade. E esse laço que te proponho só você pode amarrar.

Então, vem! Traz seu corpo mais pertinho do meu. Traz seu peso e as circunstâncias. Traz suas máscaras e a malícia. Suas lembranças e todas as saudades. Traz sua carne, treme o esqueleto. Me entrega seus ossos.

Sim, pois há quem diga que não viva sem cérebro, maconha, emoção, sem um bem, sem uns bens. Mas ninguém fala que não vive sem ossos. E isso é tão verdade quanto os outros. E essa é a verdade que ata nosso laço.

Porque nosso laço não vai só até a morte, que é logo ali, nem para todo o sempre, pois a eternidade não existe.

Mas pergunte a sua mãe, a algum amigo que te queira bem ou ao coveiro e saberá: quando você morrer seus cabelos e unhas crescerão por um tempo e só; seus ossos não crescerão, mas ficarão alimentando os vermes, a terra e os medos das pessoas. Te amarei até lá e nada mais.

Antes fosse romântico pra morrer de amor. Não sou. Morrerei dos pulmões ou do fígado; do vício. (Meus ossos estão bem). Antes meus sentimentos não fossem correspondidos para eu conhecer o platonismo além da literatura. Mas não. Estamos sintonizados.

Seu esqueleto não é tabu, nem blindado. Por que não falar dele? Não quer comprometer sua estrutura? Te desestabiliza? Acha que a carne e o sangue são suficientes? Pra mim são banais.

Por que o medo, então? Por que fala do seu coração, do seu pé, da sua bunda e do seu pau e não quer falar dos seus ossos? Já estamos entregues, então, por que não me entrega seus ossos?

Comprometa-me-se no nosso amor! Não precisa ser todo, mas uma parte.

E vem pra mim de carne e osso. Principalmente osso.

Desamor

Sonhei que amava alguém e esse alguém me amava de volta. Um amor igualmente genuíno, fora das caixinhas.

Declarava meu amor por ele, bêbado.Fazia uma ode à sua presença na minha vida. Implorava para ele não me abandonar e chorava. Me recompus e segui anunciando o quanto ele era importante pra mim.

Ele me retribuiu, não pela mera obrigação, mas porque se sentiu tocado e, ela primeira vez, se dera conta de como me amava.

Foi lindo. Foi redentor.Foi sonho.

Acordei e recebi a realidade como um pesadelo, meu corpo como uma esponja suada, o espírito assustado.

E meu coração, aberto, sem ninguém pra entrar.