Cícera é uma velha cínica e mesquinha aqui da rua
Fica fofocando o dia inteiro na calçada
Quando o assunto é quente ela nem entra
em casa pra almoçar, come na rua
mesmo, falando de boca cheia
e pelos cotovelos
Essa velha é maligna, tem língua de trapo
Ouvi dizer que ela faz simpatia, faz feitiço
Por isso quando eu passo eu cumprimento
educadamente
E saio rezando baixinho para o meu anjo da guarda
me dar proteção
Ela não gosta muito de mim
Quando percebe meu fingimento, olha
torto e resmunga
Se está de cigarro aceso, exala a fumaça na minha
direção
Eu trato bem todas as ambulantes que batem
à minha porta
Várias delas foram minhas colegas
quando eu também vendia
É que ambulantes elas são comigo
Na Cícera elas esticam
conversa, esquecem da vida e
criam raiz
E eu sou legal
Eu sou...
Acho que é porque eu sou
crente, às vezes porque não tenho
marido
...
Sabe, eu detesto bafo de cachaça, mas
de vez em quando tolero por
um pouco de companhia
...
um pouco de companhia
...
A Val já chegou,
vou fazer minhas unhas com ela
enquanto ela fofoca
na calçada da Cícera