domingo, 26 de janeiro de 2020

Cícera

Cícera é uma velha cínica e mesquinha aqui da rua
Fica fofocando o dia inteiro na calçada

Quando o assunto é quente ela nem entra
em casa pra almoçar, come na rua
mesmo, falando de boca cheia
e pelos cotovelos

Essa velha é maligna, tem língua de trapo
Ouvi dizer que ela faz simpatia, faz feitiço
Por isso quando eu passo eu cumprimento
educadamente
E saio rezando baixinho para o meu anjo da guarda
me dar proteção
Ela não gosta muito de mim
Quando percebe meu fingimento, olha
torto e resmunga
Se está de cigarro aceso, exala a fumaça na minha
direção

Eu trato bem todas as ambulantes que batem
à minha porta
Várias delas foram minhas colegas
quando eu também vendia
É que ambulantes elas são comigo
Na Cícera elas esticam
conversa, esquecem da vida e 
criam raiz

E eu sou legal
Eu sou...
Acho que é porque eu sou
crente, às vezes porque não tenho
marido
...
Sabe, eu detesto bafo de cachaça, mas
de vez em quando tolero por
um pouco de companhia
...

A Val já chegou,
vou fazer minhas unhas com ela
enquanto ela fofoca
na calçada da Cícera