segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Lula Molusco

Quando eu preciso queimar a pele,
bronzeando-a com muito esmero,
eu fecho a cortina da sala.

Minha vontade é zero.

Quando eu sinto encontrar um amor,
não enlouqueço, eu sento e espero.
Um dia essa tolice há de passar.

Minha vontade é zero.

Quando visito aqueles tantos parentes,
Faço e digo coisas que não quero.
Uma visita ao ano é mais que suficiente.

Minha vontade é zero.

Quando cumprimento meus vizinhos
Quando passo por qualquer templo
Quando o motorista não para no ponto
Quando a fila é de quilômetros
Quando a comida está muito fria
Quando meus amigos me enchem o saco
Quando desconhecidos me abordam
Quando o assunto da roda é algum bicho
Quando eu quero escrever e a rima não sai...

emergem monstros que eu mesmo gero

não ladram, não mordem...

Minha vontade é zero.

domingo, 20 de novembro de 2016

umbigo negro

O cordão umbilical era esbranquiçado e caiu.
Meu umbigo ficou e é negro.
O ventre de onde eu vim é negro.

As razões de muitas dores são o fato de eu ser negro.
Mas isso porque existe racismo, não por ser quem eu sou.
Porque se ser negro tivesse a ver apenas com o racismo, não poderia sentir o orgulho que sinto.
As raízes do meu orgulho são negras porque teve quilombo, não só senzala.

Não estou aqui só por causa da escravidão, que aniquila.
Estou aqui porque tive ancestrais, que resistiram, que lutaram.
Ainda há muito abandono, mas, veja você!, que não tenho dono.

(Eu acordo pensando em mim, não no meu senhor).

Olho pra essa marquinha no meu abdômen e lembro que vim de uma mãe negra, que veio de outra mãe negra, e de outras mães negras.

Lembro das batalhas que não presenciei, como um fruto da copa que lembra da raiz.
E, porque eu tenho raiz, sei que essa marquinha marrom não é por acaso.

Ela é um pontinho em toda uma jornada. 

domingo, 13 de novembro de 2016