- Você ouviu isso?
(...)
- Ah... Acho que escutei...
- Não, não escute! Ouça!
Tarde tão sem graça e de repente aquela voz... Uma música tão sedutora quanto original. Não era gente, não era pássaro, não era rádio.
- Ouça!
Enquanto sentia meu espírito arrebatado, Jacó tratava aquele acontecimento com imenso desprezo... E veio a raiva daquela vibração terrena que me negava prazer e curiosidade. Nenhuma alternativa possível a não ser abandoná-lo ali mesmo na calçada e seguir à procura da fonte sonora.
Nunca fui conhecido por minha coragem, contudo aquela melodia me dera fôlego novo, uma pulsação desconhecida como que nascida exclusivamente para me levar até ela.
Segui pela rua, pelo morro e certas avenidas. Depois, mais ruas, mais morros; labirinto de favelas. À essa altura, a tarde sem graça converteu-se em noite escura tão intensa quanto meu desespero. Sim, a canção terminou sem eu ter tido a fortuna de conhecer sua intérprete.
Então lágrimas. Por um instante mensurável, lágrimas. Disputando hegemonia na propagação dos suspiros com o farfalhar das árvores. “Malditas sejam essas árvores que interrompem meu luto!”, pensei.
“Árvores em favelas?”, surpreendi-me. “Pode a flor nascer do asfalto?”.
Não, nada de árvores. Apenas o farfalhar. E voltei minha cabeça para a viela que se prolongava em diagonal, mirando um trecho iluminado. Persegui-o por curto trajeto chegando a um barraco de madeirite com uma janela que dava para fora. Lá estava uma silhueta magnífica.
A dona da voz era uma mulher negra e baixa, vestida sem glórias. Balançava levemente os cabelos crespos e volumosos, atados em um lenço vermelho em descompasso com seus braços que se agitavam freneticamente devido às louças que lavava na pia abaixo do parapeito. Já seu semblante de lamento, súplica e graça acompanhava o ritmo da canção.
A figura levantou a cabeça e me observou. Depois de um breve silêncio de estranhamento voltou a cantar a balada. Então compreendi que o som de outrora era mais um cantarolar que um cantar. Agora se podiam distinguir palavras que antes não havia notado. A letra dizia:
Senhor Viajante*
Venha me despertar à noite
O dragão quer um pedaço
Do nosso amor
A flor e a mão dourada
Asas de madeira e nuvens de areia
Senhor Viajante
Vamos partir alguma hora
Encontre-me na torre
Monte seu cavalo
Aqui os golfinhos andam como gente
Aqui os ciborgues tem um plano
Senhor Viajante
Eu preciso da sua luz intensa
Vamos partir em uma hora
Encontre-me na torre
Estou fascinada
Ao concluir, pôs-se a lavar mais alguns talheres e pratos e me fitou, secando as mãos. Em seguida efetivamente tivemos contato:
- Oi, meu nome é...
- O meu não é Mônica.
Minha curiosidade devorou o restante dos medos. Estava enfeitiçado novamente. Ela consentiu, aquiescendo com a cabeça, o meu pedido para entrar e, logo, talvez pela janela, talvez pela porta, fui ao encontro da minha estranha anfitriã.
- Oi, meu nome é...
- O meu não é Mônica.
Minha curiosidade devorou o restante dos medos. Estava enfeitiçado novamente. Ela consentiu, aquiescendo com a cabeça, o meu pedido para entrar e, logo, talvez pela janela, talvez pela porta, fui ao encontro da minha estranha anfitriã.
* * *
O que afirmo aqui ter sido encontro, meus chegados chamariam de desaparecimento e possível morte durante certo tempo.
Exatamente doze anos mais tarde eu me encontrava caminhando sem olhar atrás para o exato ponto onde ouvi pela primeira vez a canção daquela misteriosa mulher.
Ao longo do caminho percebi que brotara mais asfaltos, comércios e grades; as ruas se alargaram, as casas subiram. Eu mesmo voltava mais fraco e mais gordo, com a mesma quantia nos bolsos, sem previdência ou filhos. Ela não veio comigo.
No lugar exato da calçada coincidentemente encontrei Jacó, por quem os anos também passaram principalmente nos cabelos poucos e bem prateados. Imediatamente houve agitação, ligações e toda sorte de acontecimentos óbvios diante do regresso de um ente querido.
Passaram-se enésimas inquisições familiares, policiais, clínicas, religiosas. E todas as respostas eram inventadas já que os detalhes da jornada caíram no esquecimento.
Restou a melodia, não mais a letra.
Nada de rosto, só uma silhueta.
De uma magnífica mulher comum.
Que lavava louça.
Que não se chamava Mônica.
* A letra da canção é uma livre tradução adaptada da música Sir Greendown da cantora e compositora estadunidense Janelle Monáe.
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